18 de jul. de 2006

História “açucarada”

A grande maioria de nós gosta de doces, não é mesmo? Pé de moleque, brigadeiro, cocada, e por aí vai. Todos esses maravilhosos doces têm em comum um elemento que encontramos nos armários de todas as casas: o AÇÚCAR!! Uma das matérias-primas para se fabricar o açúcar é a CANA-DE-AÇÚCAR, aquela mesma da qual bebemos o caldo doce em dias de muito calor. Agora, vocês sabiam que o cultivo da cana-de-açúcar já foi a base da economia do Brasil?

Há cerca de quatrocentos anos, quando ainda éramos colônia de Portugal, iniciou-se um ciclo econômico muito importante, talvez até o mais importante, em nossas terras. Com a intenção de fixar povoamento em terras brasileiras e conseguir mais lucros, os portugueses implantaram aqui o cultivo da cana-de-açúcar, lá nas Capitanias Hereditárias do NORDESTE. Lembram o que são as capitanias? Foi uma divisão feita pela coroa portuguesa, onde várias porções de terra foram doadas para pessoas que tivessem condições financeiras de explorar as terras. A intenção de Portugal, com isso, era incentivar o povoamento da colônia, mas não deu lá muito certo.

Voltando à cana-de-açúcar. A escolha das capitanias nordestinas para o cultivo devia-se ao fato de que com um clima mais propício e o solo ao qual melhor se adaptou a cana, a produção nessa região gerava muito mais lucro para a coroa portuguesa. E está no lucro também o motivo da escolha do cultivo da cana-de-açúcar, uma vez que seu produto final, o açúcar, tinha enorme aceitação no mercado europeu e um elevado valor comercial, o que gerava muitos lucros para a coroa portuguesa.

A exploração e cultivo da cana foram a base de toda a economia da época. Dá para imaginar uma economia de um lugar voltada apenas para a cana? Quando é uma cidade pequena, um bairro, tudo bem, né? Mas um “país” inteiro? Difícil, né? Mas há quatrocentos anos isso era mais do que comum. E tudo no Brasil girava em torno do plantio da cana-de-açúcar. Não que não houvesse outros produtos, outros plantios na época. Existiam sim. Havia a criação de gado, que foi muito importante para a expansão da população nordestina para o interior do Brasil e os animais ainda eram utilizados para mover os engenhos. Havia o plantio da mandioca, que era a base da alimentação da população colonial. Tinha também o tabaco, a aguardente (cachaça mesmo!) e a rapadura, que eram voltados para o consumo interno e também eram utilizados no escambo (troca) de escravos africanos. E, por último, ainda tinha o algodão, muito utilizado para fazer roupas rústicas, que vestiam os escravos. Todos esses produtos que tinham sua existência fortemente ligada ao cultivo da cana eram chamados de ATIVIDADES COMPLEMENTARES. Além disso, ainda tinha o cultivo da cana, que implantou no Brasil um sistema econômico muito forte, o PLANTATION.

Palavrinha feia, né? Mas ele é o que chamamos de conceito, uma palavra que nela traz a explicação de várias coisas. Quando ouvimos, lemos ou falamos essa palavrinha, temos que ter em mente três coisas, que são a base da plantation: latifúndio, monocultura e escravista. Mas, o que é isso? Já explico. LATIFÚNDIO quer dizer grande propriedade. MONOCULTURA quer dizer que apenas um tipo de planta era cultivada. ESCRAVISTA quer dizer que as pessoas que trabalhavam escravas.

Escravos, “Sinhá Moça”? Mais ou menos isso. Só temos que lembrar que na novela já estamos perto da abolição e que lá a exploração é de café. Mas, a forma como vemos os escravos viverem em “Sinhá Moça” é mais ou menos a mesma a qual os escravos viviam em tempos de plantio de cana. Os ESCRAVOS AFRICANOS eram mercadorias, eram comprados e vendidos como se fosse um simples produto, não eram considerados gente. Vinham da África em enormes navios, amontoados as centenas nos porões. Muitos morriam durante a viagem, e tinham seus corpos jogados no mar. Vários chegavam doentes. Quando chegavam aqui, eram vendidos para os SENHORES DE ENGENHO. Isso foi o TRÁFICO NEGREIRO.

Depois de vendidos aos senhores de engenho, os escravos eram obrigados a trabalhar de sol a sol, com pouco descanso e muito trabalho. Dormiam nas SENZALAS, que nada mais eram do que grandes galpões, sem conforto algum, sem higiene nenhuma. Os negros dormiam no chão frio de terra batida. Enquanto isso, o senhor de engenho, todo poderoso, vivia confortavelmente na CASA GRANDE.

A estrutura da sociedade canavieira era essa. O mais importante de todos, a quem todos obedeciam, era o senhor de engenho. A base, os que trabalhavam e sofriam, eram os escravos. Existiam umas poucas pessoas “livres”, donos de pequenos canaviais, comerciantes, capatazes, artesãos, mas eles eram dependiam do dinheiro do senhor de engenho para viverem. Nessa sociedade, quem mandava era o homem. As mulheres não tinham vez, não tinham voz e faziam o que seus maridos e pais mandavam. Isso é o que chamamos de PATRIARCALISMO.

Para ver quanto história tem o açúcar dos nossos doces deliciosos, não é mesmo?

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Professor de História